Se antes escrever bem significava ter um bom texto, agora, com as mídias digitais, é primordial que o redator aprimore ainda mais seu conhecimento em outras áreas, que invariavelmente envolve Teoria da Informação, Marketing e Psicologia.
É o que defende o consultor de Informação e Comunicação Digital, Bruno Rodrigues (@brunorodrigues), autor dos livros ‘Webwriting’ (2000, 2006 e nova edição em 2012) e de ‘Padrões Brasil e-Gov: Cartilha de Redação Web’ (2010), padrão brasileiro de redação online. Para ele, “lidar com informação é mergulhar fundo em seu universo, ter uma visão 360º dela.”
Na opinião de Rodrigues, o papel do produtor de conteúdo resume-se agora à palavra ao invés da frase. “Os gestores de informação digital precisam ser amantes da palavra, que cada vez mais é o ponto nevrálgico do relacionamento com o usuário. Hoje, escrevemos para sermos vistos, depois para sermos lidos. É assim e cada vez mais será”, opina o especialista em webwriting.
As mídias sociais também alteraram a forma como os profissionais da redação lidam com o texto. “O consumo da informação por conta das mídias sociais está cada vez mais violento e temos que entregar o que o público exige”, destaca Rodrigues, que, com exclusividade ao blog da Midiatix, deu 5 dicas para quem deseja escrever bem para as mídias digitais. Confira a seguir.
Qual é o segredo da boa escrita?
Na mídia digital, é preciso entender que o papel do produtor de conteúdo mudou bastante, é bem diferente do que acontece na mídia impressa, por exemplo. Enquanto os redatores são amantes da frase, os gestores de informação digital precisam ser amantes da palavra, que cada vez mais é o ponto nevrálgico do relacionamento com o usuário. Hoje, escrevemos para sermos vistos, depois para sermos lidos. É assim e cada vez mais será.
Quais são os principais pontos que você destacaria de seu livro “Webwriting”?
Em meus dois primeiros livros – assim como no terceiro, que lanço este ano – meu foco é o estudo da informação, seja institucional, notícia, serviço ou produto, e o seu comportamento pela diversas camadas de um site ou portal. Como aproveitar todo o potencial da convergência de mídias, que durante tanto tempo foi promessa e hoje faz parte da realidade de (quase) todos? Em meus livros também ajudo o leitor a ampliar a visão do universo da informação, a entender que ela não é só texto, que muitas vezes um infográfico ou um vídeo tem muito mais poder de fogo na rede, mas cismamos com texto. É preciso ter noção de que o texto ainda é o centro dos formatos da informação – até porque é assim que o ser humano (ainda) gosta de acessar a informação básica, principal. Mas, até quando? Veremos outro formato superando o texto?
Quais são as diferenças entre escrever para as mídias digitais e para um veículo impresso, por exemplo?
Nas mídias digitais, é preciso agradar muito mais do que na mídia impressa, a persuasão é item básico de sobrevivência. Não basta apenas informar, que é o que eu chamo de ‘encher caixinha’. O leitor, o usuário, está na sua jugular, queremos mais, querendo tudo, criticando na hora. Ele quer informação, não ‘encheção’ de linguiça. O consumo da informação por conta das mídias sociais está cada vez mais violento e temos que entregar o que o público exige.
O que a internet trouxe de novo e de mais desafiador para quem escreve?
A web recuperou a necessidade de estudar Teoria da Informação, Marketing, Psicologia. Até então, o redator, o produtor de conteúdo, apenas sabia apurar e escrever, e vamos em frente. Ele conhecia um destes assuntos por alto, mas o que valia era a ‘intuição’, a ‘experiência’. Quem hoje pensa assim, no universo da produção de conteúdo, fica para trás. Lidar com informação é mergulhar fundo em seu universo, ter uma visão 360º dela. É muito mais do que apenas elaborar um texto.
De que forma as mídias sociais impactaram o dia a dia das redações?
O jornalista ‘das antigas’ odeia mídias sociais, assim como os mais herméticos – para estes, eles ficariam aqui e os leitores, ali. Já há algum tempo o leitor brinca com a notícia como se fosse uma massinha de modelar, pergunta, questiona, mexe, taca na parede, estica e quer mais detalhes. Ele coloca o fato em um microscópio, acha erros, xinga, reclama – e também elogia, surpreende, faz a notícia ficar mais viva. No olho do furacão, está o jornalista. Se ele não entender que é preciso pendurar o ego atrás da porta, é bom agendar horários diários na terapia ou mudar de profissão.
As redes sociais também contribuíram para a propagação de notícias falsas. Quais são os cuidados que um jornalista deve ter no momento de apurar uma informação?
A fonte primária sempre foi ensinada nas escolas de jornalismo como a única fonte confiável. A questão é que hoje a velocidade da informação não permite este luxo, esta espera. Piscou, um noticioso online corrente já deu a notícia que conseguiu em um blog ou através de um contato não tão conhecido assim do Facebook. É preciso estar dentro das mídias sociais para compreendê-la, ter faro para não cair nas armadilhas da informação que flui e nunca para.
É possível escrever em 140 toques, como no Twitter? Quais os truques para atingir o receptor com textos tão curtos?
Claro que é possível – errado foi o Saramago (que Deus o tenha) que disse que com recursos como o Twitter retornaríamos ‘aos grunhidos’. Microblogs como o Twitter são fabulosos, de uma objetividade absurda – quem consegue encher linguiça em 140 caracteres? Mas é bom ter noção de que ninguém ‘assiste Twitter’ como assiste tevê. Você não fica acompanhando o que uma empresa vai tuitar. Seguimos muitos, dezenas, centenas. Dê sua mensagem e saiba que não há continuidade. Ninguém vai lembrar – ou terá lido – o seu tweet anterior.
Qual é o uso que você faz das redes sociais? Como aprendeu a escrever para elas?
Só uso para divulgar meu trabalho, raramente falo de vida pessoal, mas isso é uma opção. Ainda assim, às vezes meus seguidores do Twitter ou amigos do Facebook se surpreendem ao descobrir que também sou roteirista de quadrinhos. Afinal, seja webwriting ou quadrinhos, o que mais fazemos além de contar histórias, não é? Para entender como se escreve para redes e micrologs, o fundamental é entender que em ambos os ambientes lidamos como informação e relacionamento, mas as redes são mais fortes em relacionamento, e é ele que ‘carrega’ a informação; nos microblogs, é a informação que trabalha o relacionamento.
O desafio de escrever para a web também envolve técnicas de SEO? Você recomenda que um profissional de escrita seja especialista em SEO?
É obrigatório saber SEO para se tornar um bom produtor de conteúdo. Mas também é importante saber que SEO vai muito além do que se pode fazer ‘explicitamente’ com uma informação, seja ela texto, imagem, arquivo etc. Otimização para Sistemas de Busca é uma área muito mais ampla, há muitos pontos de ligação com webwriting, mas não é tudo.
>>> Confira 5 dicas do especialista e consultor Bruno Rodrigues para quem deseja escrever bem para as mídias digitais:
. Esqueça o clichê de que ‘internet é lugar de texto curto’ – há muito já se provou que depende muito da camada do site portal onde a informação está. O buraco é – literalmente – mais embaixo;
. O texto é parte de um guarda-chuva chamado Informação – que não é sinônimo de dado e conhecimento. Produzir conteúdo sem saber estas diferenças é morte profissional na certa;
. Em um site, ajudamos a produzir Conhecimento – e Informação é a matéria-prima para a construção do Conhecimento. Um site ou portal que produz toneladas de informações sem provocar ou facilitar a produção de conhecimento está prestando um desserviço ao visitante;
. Indexar um texto é tão importante quanto escrevê-lo. Um texto que não é indexado é invisível e você jogou tempo (e dinheiro) fora;
. O ato de escrever também pode ser aprimorado – já percebeu como médicos e engenheiros estão o tempo todo fazendo cursos de aprimoramento e reciclagem. E o redator?